Textos

Simeão Leal, o semeador da cultura

José Simeão Leal (1908-1996), paraibano da cidade de Areia, escreveu uma trajetória de vida saboreada de cultura, cores, artes e ousadia. Com um temperamento inquieto, indagador e intempestivo, esse intelectual firmou raízes na observância da cultura popular, das artes plásticas, da crítica literária, da edição de livros. Um semeador das letras, transformou-se no mais significativo editor público brasileiro. Se ousar era parte integrante de sua personalidade, ele parece conhecer, na prática, os limites e as possibilidades da ação de um agente de transformação social e cultural.

Enquanto apreciador e intérprete da cultura, Simeão nos mostra o movimento das coisas e dos pensares. Quebra a sequência natural do tempo e rompe um minuto do outro – o tic tac do relógio não o desvencilha –, nunca se cansa e, nas frações imperceptíveis, cria outra dimensão, nem sempre compreendida a olhos comuns, mas que revelava: ele sabia descobrir e divulgar talentos. Foi assim com Tiago de Mello, Clarice Lispector, Tomás Santa Rosa, entre tantos outros, que, em torno dele, formavam a roda dos intelectuais da década de 1950.

Colocando-se na contramão dos ditames comuns, entre o tempo e a academia, Simeão Leal procurou dar maior transparência às suas indagações etnoantropológicas, constituídas de relatos informais, de anotações de campo e de observação a respeito das manifestações da cultura popular. Escreveu inúmeros manuscritos, que trazem uma significativa contribuição para os estudos da cultura popular, embora que, infelizmente, ainda hoje, permaneçam sem nenhuma repercussão. São escritos maiorais, onde ele fala acerca da nau catarineta, dos congos, lapinha, danças africanas, adivinhações, cantigas de roda...

As coletas de dados do pesquisador Simeão Leal seguiam os ritos. Inicialmente, ele realizava o levantamento bibliográfico do que havia sido publicado nos diferentes suportes existentes na época (jornais, revistas e livros), para proceder à leitura de todo o material e relacionar os nomes das diversas manifestações e as respectivas designações nas cinco regiões brasileiras. Depois, partia para o trabalho de campo, visitando grupos culturais populares e suas variadas manifestações. Anotava, então, tudo o que via, gravava (utilizando fios de metal) e fotografava quando lhe era permitido. Só assim, após todas essas ações, é que Simeão Leal entendia que o mapeamento do bem cultural estava realmente completo.

Figura determinante no âmbito da produção, circulação e divulgação das obras de escritores e artistas brasileiros, Simeão Leal inscreveu seu nome na cultura brasileira. Lançou novos escritores e editou inúmeras obras enquanto esteve à frente do Serviço de Documentação, do antigo Ministério da Educação e Saúde, num período de 18 anos, sete meses e sete dias. Em certo sentido, iniciou, no Brasil, o movimento editorial no campo público: um universo de intricados meandros, de labirintos oníricos. Entrevê-se, assim, o lugar ocupado por José Simeão Leal nas letras, artes e cultura. Enfim: no campo intelectual e artístico brasileiro.

Na questão do editorial público, José Simeão foi um descobridor nato de talentos literários. Acreditava que era dever do Estado a impressão, divulgação e circulação de obras, sobretudo as que discorressem sobre conteúdos que retratassem o Brasil e sua diversidade. E foi com esse espírito que ele editou a Revista Cultura, em parceria com o ilustrador e artista plástico, também paraibano, Tomás Santa Rosa. As edições circularam por seis anos consecutivos, através do Serviço de Documentação/MES. Contudo, a parceria entre Simeão e Santa Rosa incitou não apenas a iniciativa da publicação, mas inúmeras outras. Conforme identificou Duarte (2001, p. 153), figuram ainda: a revista Arquivos, catálogos de exposição de artes, além de inúmeras coleções – Aspectos, Artistas Brasileiros, Documentos, Letras e Artes, Novos Rumos, Teatro e Vida Brasileira –, separatas de cultura e de arquivos, discursos, programas de ensino, revistas, jornais e as coleções Quadrante e Imagens do Brasil.

No cerne de sua trajetória pessoal, inscreveu-se um mundo fragmentado, desconexo, ao mesmo tempo organizado, com base em um critério rigoroso, bem articulado aos valores que o presidiram. Em rápida passagem pelo percurso da vida, registra-se o Simeão médico, professor, secretário de Estado na Paraíba, adido cultural, representante brasileiro em vários países, jornalista, editor, amante e pesquisador da cultural popular, membro fundador da Associação Brasileira de Críticos de Arte e diretor da Escola de Comunicação e Artes e membro fundador da Escola Superior de Desenho Industrial (ambas no Rio de Janeiro). Foi ainda, membro da Comissão Organizadora da I e II Bienal Internacional de Arte de São Paulo, quando atuou como curador da exposição que homenageou Eliseu Visconti, por considerá-lo “o verdadeiro marco da pintura moderna no Brasil”, sem menosprezar, contudo, o trabalho de excepcional importância realizado por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Di Cavalcanti e tantos outros, pioneiros do modernismo no Brasil.

Simeão Leal atuou como coordenador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, além de ter sido artista plástico e escultor. Sua arte foi revelada em plena maturidade intelectual – só veio a público nos idos de 1950 – e, nela, projetava-se solitariamente, através de linhas sinuosas, esculturas em ferro, desenhos, colagens e pinturas de cores mistas, em tons avermelhados e fortes, e empregando materiais diversificados. Era vanguardista de uma estética contemporânea. Um Simeão múltiplo e de fantasia solta, de artes frutíferas em formas cinéticas, ilusionistas, que possibilitam túneis infinitos em espaços inquietantes. “Seus trabalhos”, como bem afirmou Flávio de Aquino, “são frutos do matemático poeta”. Assim, ele produziu arte sem prender-se a determinismos acadêmicos e críticos, revelando, em sua peculiar rebeldia, a livre expressão; o fluir dos sentimentos.

Percorrer seu itinerário cultural é como transitar por entrelinhas que se cruzam, se misturam e, ao mesmo tempo, se enfrentam. É percorrer um caminho dialético do novo, do surpreendente. Ler sua vida é o desafio que nos é proposto nesta exposição, a partir de fragmentos e pequenas dimensões modeladas para dar-lhe sentidos, ora múltiplos, ora sublimes. Seus momentos criam cenários que enfatizam uma tensão entre o Simeão popular e o erudito; o boêmio e administrador público. São pequenos frees, que transitam entre territórios não definidos e conceitos (im)precisos.

O conjunto das suas peças gera novos cenários, novos contextos e novas possibilidades. Entrar em seu habitat é transitar entre o inesperado e o possível; entre o cheio e o vazio; entre o criador e obra. Há, aqui, infinitas armações e armadilhas.

Sintam-se, portanto, convidados a refazer as relações. Sejam criadores de diferentes narrativas que os remetam ao passado e ao presente, numa poética que propõe um jogo e que cada peça espera, ansiosa, o olhar do espectador.


Profª Drª Bernardina Maria Juvenal Freire de Oliveira
UFPB/PPGCI – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação
UFPB/PPGCI – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação



Vive-se no Brasil um estado de auto-descoberta. A produção cultural de fora do centro-sul, por muito tempo esquecida, começa a emergir e emerge em dois sentidos: o do reconhecimento nacional, pois finalmente os circuitos de informação das instituições tendem a isso, e o de reconhecimento local, da aceitação da província e do município como os verdadeiros lugares onde se vive a aventura de fazer este país, e desde que, do mesmo modo, as instituições se curam da miopia que lhes assolava e impedia de ver em nossa produção artística nossa melhor e mais verdadeira fala.

Algumas pessoas tem um papel decisivo neste processo. Aqueles que trabalharam na base da questão, no registro correto e desenvolvido dos fatos e movimentos culturais, na produção da memória, na descoberta de novos valores, na antecipação de importantes acontecimentos artísticos, como Simeão Leal. Diretor do Serviço de Documentação do MEC ele editou e revelou ao Brasil a face de sua arte e do seu pensamento contemporâneo, principalmente das décadas de 40 a 60.

Médico, secretário de Estado na Paraíba, crítico de arte, diplomata, adido cultural em vários países, jornalista, diretor da Escola de Comunicação do Rio, amigo de vários artistas, entre eles Santa Rosa, com esteve na Índia quando do passamento daquele artista plástico paraibano, suas andanças pelo Vietnã no entre guerra e outros países orientais, são rápidas pinceladas em seu vasto e rico currículo. O que nos enche de agradável surpresa é o fato de Simeão revelar-se agora, em plena maturidade intelectual, artista plástico de linguagem contemporânea; e isto é muito importante porque não se trata de um homem idoso fazendo terapia através da arte, com o olhar no passado a reviver lembranças, mas de um artista com o pensamento no futuro, construindo sua arte avalizada por uma grande experiência de vida.

Como pioneiro na documentação de nossa cultura, como articulador de significativos movimentos de arte, como descobridor de talentos, o homem público que sempre arriscou seu prestígio em defesa dos bens culturais, em detrimento mesmo dos oportunismos políticos, ele já é bem conhecido. Mas como artista ligado a uma inteligência estrutural e uma vontade construtiva própria de uma arte de linguagem universal, Simeão está para ser descoberto pelo Brasil, num dialético ato de retorno, próprio para justificar o processo de vida de um homem que plantou e colheu ideias e seu talento revelado agora nas entrelinhas de seu trabalho, nos novelos de fios mentais, nas estruturas que suportam suas grandes ideias.

Não poderia haver homenagem mais significativa ao quarto centenário da Paraíba do que mostrar a obra deste artista que foi contemporâneo de José Américo de Almeida e José Lins do Rego, mas que é também contemporâneo de nossa mais nova arte, da vanguarda de nossa visualidade, da visualidade deste Nordeste construtivo e banhado de luz.


Raul Córdula (ABCA-AICA), na apresentação da exposição de Simeão Leal no Salão Negro do Senado Federal, Brasília, 1985



Afastado pela idade, de tantas iniciativas que produziu ou esteve integrado, como as artes visuais, notadamente das artes plásticas, Simeão Leal passou à condição de artista. O amante e crítico das artes, finalmente, rendeu-se à amante, mas mesmo assim não se acalmou. Pelo contrário, as energias amorosas que lhe restavam explodiram na sua última paixão, agora transformada em vibrantes pesquisas óticas, de tracejados, instigantes colagens e psicodélicas montagens, universo completado pelas experiências escultóricas que teve com lições de Fernando Jackson Ribeiro outro “excêntrico” existencialista, nascido na Serra do Teixeira, Alto Sertão paraibano.

E aqui entra o meu pedaço de história da vida de Simeão. Eu, quando muito jovem, à frente do Museu de Arte de Campina Grande, pelos idos do final dos anos 60, o conheci. Encontro este que se transformou numa grande e respeitosa amizade pelo Mestre, e que tanta influência cultural e moral produziram no seu novo e talvez último amigo de boemia, que pela confiança e confidência levou-me a um compromisso de trazer em segurança à Paraíba todo o acervo de livros, documentos, objetos pessoais e obras artísticas por ele produzidas, tal como era sua vontade, apoiada por Eloáh Drummond, sua dedicada esposa e testemunha das nossas conversas. Esse era o desejo de Simeão: que seu acervo de livros se transformasse em patrimônio público dos paraibanos. Que os documentos por ele guardados pudessem trazer à tona, após sua morte, precioso subsídio para a cultura nacional. Que suas obras artísticas revelassem à posteridade seu amor à arte e que suas cartas pessoais registrassem, se possível, o seu amor à amizade e à vida e que, mesmo com atribulações, vale a pena viver.

Em respeito à sua memória e à sua vontade, o Governo da Paraíba, em 1996, logo após a sua morte, na gestão do governador, José Maranhão, e tendo à frente da Secretaria de Educação e Cultura, os professores, Iveraldo Lucena e Osvaldo Meira Trigueiro, o acervo de Simeão foi transferido para a Paraíba e hoje dele se servem professores, estudantes, pesquisadores, gerando, inclusive teses acadêmicas, a exemplo da produzida pela professora Bernardina Freire, do Departamento de Ciências da Informação/UFPB, junto ao programa de pós-graduação em Letras da mesma universidade, na área de memória e produção cultural, que, certamente revelará ao mundo a verdadeira face desse grande brasileiro, através do estudo intitulado Escrita da intimidade: a produção cultural de José Simeão Leal, cujo objetivo consiste em construir uma narrativa autobiográfica, levando em consideração as práticas de uma escrita de si, reveladas em seu arquivo pessoal.


Francisco (Chico) Pereira da Silva Júnior (ABCA), em artigo para a revista Terceira Pessoa, João Pessoa, 2010



José Simeão Leal era um homem com forças centrípeta e centrífuga. Ele absorvia conteúdos diferentes, era um homem que passeava pela literatura, pelas artes plásticas, pelo cinema, pelo jornalismo. Ele se interessava pelos jovens, era editor, jornalista, um polígrafo, foi folclorista, registrou vozes do povo de maneira desconhecida para mim, como gravação em fios de cobre. Um homem extraordinário, ao mesmo tempo boêmio. Era um homem cuja vida entre a seriedade cultural e o extravasamento existencial, não tinha separação. Tem uma crônica extensa, de coragem, de movimentação, até livros e filmes. Era uma figura humana extraordinária, um arregimentador Simeão era, portanto um homem de absorção e de síntese e ao mesmo tempo de difusão cultural. Foi editor, artista plástico, adido cultural, educador, ajudou a criar duas escolas hoje importantes no Rio de Janeiro, uma Escola Superior de Desenho Industrial, quando ele estava no Estado e tinha uma função de presidir a comissão que criou a ESDI, o mais importante cento de formação de desenhistas industriais no sul do País

Criou, na atual Escola de Comunicação da UFRJ, no Rio de Janeiro, o primeiro mestrado em comunicação e cultura, hoje reconhecido pela CAPES e pelo CNPQ. Foi um acolhedor de intelectuais, principalmente novos. Eu pessoalmente devo muito a ele minha vida universitária. Fui recrutado no jornalismo por Simeão Leal, quando voltava da França. Devo minha formação na Universidade ao incentivo e impulso de Simeão. E foi assim com dezenas e dezenas de pessoas. Portanto, era um criador de escolas, um homem que criava escolas, era um homem que empurrava os outros, botava os outros pra frente. Vejo um paralelo com Darcy Ribeiro que é um homem extraordinário que sabe fazer seu marketing. Simeão também. Não estou falando por trás, é que Darcy faz seu próprio marketing, sua publicidade, é aquele sujeito extravagante, que dizia: “Deus é um bom sujeito, mas tenho um melhor projeto de vida.” Simeão jamais diria essas coisas. Ele não se escondia, aliás se escondia, pois não fazia propaganda de si mesmo, não dava entrevistas, se recusou a ditar sua vida. Eu quis botar uma estagiária para ele contar sua vida. Ele escutava, enrolava, me dava um quadro, e caia tudo no esquecimento. E assim esse homem, eu diria que contrasta sua formação, sua trajetória, seu desenvolvimento, com o Brasil de hoje, onde os assuntos culturais, a administração da cultura, de algum modo se burocratizou. Há institutos, instituições, há Secretarias de Cultura com funções determinadas, verbas escassas, mas alocadas. Simeão é do tempo em que a Secretaria tinha que ser criada. Daí esse caráter de síntese, de coragem, é difícil de falar porque ele era “ação”.

Gostaria de contar um pequeno episódio, para que tenham a ideia do que era a figura de Simeão Leal. Ele mudou a Escola de Comunicação para aquele Hospício da Pedro II, onde ele tinha sido interno, como médico, depois o prédio foi tombado, a Escola ainda não tinha grande prestígio; precisava de uma biblioteca e as armações de metal eram caras, pertenciam à Escola de Química, e o Reitor, Hélio Fraga, disse que as armações eram da Escola de Química e que iria retirá-las de lá. No dia chegaram os guardas, os caminhões. Sabem o que ele fez? Sentou no meio da sala, tirou o cinto e disse que daria uma surra em quem levasse as armações e depois pegaria o Reitor. Todos se retiraram sem levar nada. Nunca mais voltaram e a biblioteca está lá no mesmo lugar até hoje. Os que o conheciam, sabiam que ele faria isso mesmo. Só um paraibano com esse espírito marcou época, marcou presença e foi, antes de mais nada, uma presença.


Muniz Sodré (ex-Diretor da Fundação Biblioteca Nacional), em depoimento durante homenagem a Simeão Leal no III Festival Nacional de Artes-Fenart, João Pessoa, 1997



A lógica de um temperamental

Conheci Simeão Leal na década de 40, quando ele dirigia o Serviço de Documentação do MEC. Lá ele fez uma obra exemplar, editando os Cadernos de Cultura com centenas de títulos, a revista Cultura, promoveu e foi júri de bienais internacionais e paulistas. Depois foi diretor da Faculdade de Comunicação da UFRJ. Protegeu artistas, foi amigos e editor dos maiores escritores brasileiros. Durante conversas, em sua mesa de trabalho no MEC, costumava recortar revistas para formar colagens. Certa vez, Herbert Read admirou-se com um rabisco que Simeão colocava à sua frente sob o vidro da mesa. De arte ele sabia tudo, mas poucos conheciam seu vício solitário do desenho, colagem e pintura que começou aos poucos, por volta dos anos 50. Sentado como um Buda, este homem de temperamento exaltado começou a fazer uma arte contemplativa, minuciosamente construída a régua e tira-linhas. As colagens iniciais revelam o impacto da fantasia solta e mesmo da alucinação. Isto é Simeão. Mas seus desenhos cinéticos e ilusionistas, criando túneis para o infinito e espaços inquietantes, são frutos do matemático poeta. Em várias obras – algumas expostas na Itália com grande sucesso – os traços cruzados formam núcleos que pulsam como uma vida latente, como estrelas brilhando no céu. É incrível a firmeza de sua mão de paraibano temperamental. Tive o prazer de acompanhar quase toda a sua obra extremamente original e posso afirmar que a Galeria da FESP está lançando um excepcional desenhista, único em seu gênero no Brasil. O caminho de Simeão está aberto, falta agora a manifestação de outros amadores e críticos de arte. E também de psicologia aplicada à arte que converte um hobby numa magistral manifestação de arte optical e cinética. É ver para crer.

Flávio de Aquino (ABCA-AICA), na apresentação da exposição de Simeão Leal na Fundação Escola do Serviço Público, Rio de Janeiro, 1984



Não basta o saber, às vezes nem é tão necessário. Algo porém sempre presente, sempre retraído, conduz a presença de certas e poucas pessoas e o efeito é imediato. Não depende desta ou daquela atitude, mas se dá no simples estar presente, ao contrário, todos os atos passam a compor o exercício da mestria, não pode ser transferido, não pode ser doado; o espaço da relação que cria é para ser ocupado pelo discípulo, não é desdouro nem desdém mas a abertura da possibilidade da constituição de um outro mestre. A relação entre discípulo e mestre nunca é superada, mas é desdobrada pelo discípulo na medida da conquista de sua mestria. Só uma postura se impõe à reverência. Simeão mestre, permitam-nos lembrá-lo nessa condição, muitas outras condições seriam possíveis mas todas podem se obrigar no regaço da mestria. E é de longe o regaço da maior envergadura; permitam-nos expressar nossa gratidão por todo seu legado. Estaremos sempre no empenho de corresponder e assim continuar reverenciando. Simeão, mestre, um grande abraço. Obrigado.

Fábio Lacombe (Professor da Escola de Comunicação/UFRJ), citado por Muniz Sodré durante homenagem a Simeão Leal no III Festival Nacional de Artes-Fenart, João Pessoa, 1997



Simeão Leal – Eminência parda

A Paraíba viveu um momento de grande esplendor nos meados do século XX. Nem parece a Paraíba de hoje, a daqueles tempos. Quem te viu e quem te vê. É o que a gente poderia dizer da Paraíba. Foi um tempo, realmente extraordinário. A Paraíba vinha da Revolução de 30, dos clarões, dos grandes incêndios, os incêndios purificadores que animaram a alma paraibana e a retemperaram. E partiu então a Paraíba para assumir o seu lugar no cenário nacional. José Américo na preparação da Revolução tinha publicado “A Bagaceira”. Tinha feito ele próprio uma revolução literária. Ele tinha lançado o movimento pioneiro do romance regionalista. Tinha havido experiências de romances regionalistas anteriores, mas não com as características de “A Bagaceira” e do movimento que, afinal de contas tinha assumido uma importância tão grande a partir de 1930. Em 30 veio a Revolução e projetou José Américo e não só José Américo, mas um número enorme de valores paraibanos. Nos anos 40 e 50 a Paraíba teve, realmente, uma importância decisiva não apenas no processo político, mas também no processo cultural brasileiro.

Nós estamos agora a evocar a figura de Simeão Leal. Simeão Leal, como disse muito bem Muniz Sodré foi uma figura de elite, que só dentro da tradição patrimonialista, como salientou Muniz Sodré, podia ter aparecido. Foi o centro, ao mesmo tempo em que realizou uma ação centrípeta e centrífuga, como todo grande articulador, como todo grande incentivador. Veio na hora exata. Iniciou-se aqui (como todos os grandes paraibanos que tomaram conta do cenário federal) e é interessante recordar algumas iniciativas de Simeão Leal de que a Paraíba não guarda a memória.

O iniciador da arquitetura moderna, depois de um belo período que atravessou os anos 30, da Art Noveau na Paraíba, quero salientar que o melhor monumento de Art Noveau no Brasil foi o monumento funerário de Antenor Navarro, no Cemitério Senhor da Boa Sentença. Depois de ter passado por essa fase de Art Deco entramos na arquitetura moderna e a primeira iniciativa ocorrida aqui na Paraíba foi, por intermédio de Simeão Leal que propôs o projeto, a Maternidade Cândida Vargas. Foi a primeira grande iniciativa em termos de arquitetura moderna. Já tinha havido algumas obras no Governo de Gratuliano de Brito, com a construção da Secretaria da Fazenda, mas dentro do movimento de Art Deco. Foi também de Simeão a iniciativa de se interessar por Burle Marx para o projeto do jardim da Praça da Independência. Vejam bem como a coisa vem se entrelaçando, e as grandes figuras do tempo vão se articulando e Simeão sempre como o centro das articulações de uma série de iniciativas da maior importância não somente para a Paraíba, mas, também para o Brasil inteiro

Ele atraiu Burle Marx para o projeto da Praça da Independência, que nunca foi realizado, lamentavelmente. Burle Max, nos anos 30 tinha feito o projeto para a Praça de Casa Forte, no Recife, que é ainda conservada nas suas linhas originais. Esse foi o ponto de partida de Burle Marx. Depois disso, por iniciativa de Simeão, fez um projeto para a Praça da Independência, que começou a ser executado mas que não teve continuidade. Houve uma série de iniciativas. Até pouco tempo estava conversando com o pessoal do Espaço Cultural e lembrava que aquela cabeça que está hoje na Praça de Pilar, e que há uma cópia dela aqui no Museu José Lins do Rego, a cabeça de José Lins do Rego, de autoria de Bruno Giorgi, que foi, sem dúvida, o grande escultor do Brasil, sem esquecer Bernadelle, que foi o maior escultor do século. Pois bem, a cabeça de José Lins do Rego que se encontra hoje na Praça de Pilar, foi feita por iniciativa de Simeão Leal. Há uma série de coisas assim.

Ele era um grande entusiasta. Tinha sangue quente, como todos os Almeida. Não é querida Maria? Embora que os Almeida de Maria são outros, que não os de Areia. Simeão Leal era sobrinho bisneto do Major Quincas que teve uma belíssima aventura com Carlota Lúcia, uma sertaneja indomável que, certamente foi a figura inspiradora da Soledade, n’A Bagaceira de José Américo. Carlota Lúcia teve uma paixão desvairada e era uma mulher de calibre, não era paraibana, mas tinha arrancos de mulher paraibana, e, ultrajada, lavou o ultraje com sangue de quem ousou ultrajá-la. Major Quincas que não tinha conhecimento da trama, solidarizou-se com sua amada e terminou, melancolicamente, morrendo em Fernando de Noronha, depois de ter sido condenado a muitos anos de prisão. Carlota sobreviveu a ele e ainda conquistou a liberdade. Um belo episódio da vida paraibana, um episódio mal contado, mal interpretado, e que ainda hoje é olhado de uma maneira muito preconceituosa. Mas foi um episódio lindo, foi um dos episódios mais românticos da história dos grandes amores. Portanto, Simeão era sobrinho bisneto de Major Quintas e era um homem de sangue na guelra. Chico Pereira lembrou que ele octogenário, se atracou com uma pessoa que tentou ofendê-lo, na Bienal de São Paulo, e rolou pelo chão, em luta de vida ou morte. Era isso. Um grande incentivador, no momento em que a Paraíba, realmente, ocupava o cenário nacional. Ele reuniu figuras singulares. José Américo de Almeida tinha se projetado como uma grande figura de pioneiro que iniciava o romance regionalista; José Lins do Rego, tinha iniciado o ciclo da cana de açúcar, e tinha dominado, totalmente a ficção brasileira, não digo totalmente, porque havia a presença de Jorge Amado e tenho a impressão de que o maior livro produzido por essa literatura foi “Fogo Morto”, o nosso “Quixote” paraibano. José Lins do Rego pontificava, nos meios jornalísticos, e de cultura, no Rio de Janeiro e os paraibanos que faziam aqui política naquele tempo, tinham uma grande projeção, era uma plêiade admirável. Ainda há pouco foi lembrado o nome de Samuel Duarte. Nessa época Samuel Duarte presidiu a Câmara Federal com uma dignidade intelectual insuperável. Poucas vezes a Presidência da Câmara se revestiu de tanta dignidade intelectual; era uma figura extraordinária. Simeão estava lá, no Departamento de Documentação do Ministério da Educação e Saúde. José Lins do Rego deitando seus livros, Santa Rosa ilustrando todas as primeiras edições de grandes autores que foram lançados na década de 30 por José Olímpio. Todas as capas e ilustrações editadas por José Olímpio foram feitas por Santa Rosa, de quem Simeão se aproximou muito. Santa Rosa foi um dos amigos mais íntimos e um dos grandes assessores de Simeão. Curiosamente foi levado por Simeão à Índia e lá encontrou a morte. Simeão tinha com Santa Rosa uma admirável convivência, uma cordialíssima, uma fraternalíssima convivência. Assistiu à morte do amigo na Índia distante. Nas índias do leste, como chamou Carlos Drummond de Andrade, num poema dedicado a Santa Rosa. Santa Rosa foi outro elemento que a Paraíba forneceu ao Brasil e que teve uma importância decisiva no processo cultural, na época. Ele foi o grande cenógrafo do teatro inovador de Nélson Rodrigues que fez os cenários de “Véu de Noiva, “A Falecida”. Os grandes lançamentos de Nélson Rodrigues fizeram de Santa Rosa o seu cenógrafo. Não só o teatro, mas também a obra deveu muito a Santa Rosa, nessa época, por assim dizer o cenógrafo oficial. Ele fez cenários para D. João, de Mozart; La Traviata, de Verdi; Carmem, de Bizet e teve uma participação decisiva no trabalho realizado por Simeão, de articulação dos meios intelectuais, não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil inteiro, no sentido de formar uma grande corrente de cultura que teve em Simeão o seu grande incentivador.

Esse papel de Simeão foi uma espécie de “eminance gree” da cultura brasileira. Ele foi um homem que teve um papel decisivo nos bastidores. Ele nunca foi ao palco. Foi a eminência parda, no sentido de que ficava sempre na sombra, incentivando, articulando, criando coisas, inventando, convocando, chamando os artistas a fala e dando aos artistas e aos intelectuais oportunidades que eles não teriam tido se Simeão não ocupasse um papel tão importante no sentido de promover essas iniciativas todas. José Lins do Rego, José Américo de Almeida, apesar de estar exilado na sua casa, na Rua Getúlio das Neves, no Jardim Botânico, tinha uma importância decisiva. Até que em 1945 ele veio à tona e lançou o grande grito que derrubaria o Estado Novo. A presença da Paraíba de novo, a presença da Paraíba em 30, nos meados do século, principalmente no grande momento de esplendor dos meados do século. José Lins do Rego, Santa Rosa, toda uma plêiade de paraibanos, sem fazer referência aos políticos, tínhamos, realmente um grupo de primeira ordem. Não eram apenas Samuel Duarte, Ivan Bichara, Ernany Sátyro, José Joffily, todos figuras da melhor categoria intelectual. E essa gente toda teve uma importância decisiva, mas curiosamente o “piau” era feito em torno de Simeão, que articulava, comandava nos bastidores como uma eminência parda. E é esse homem que nós queremos homenagear nessa hora.

Odilon Ribeiro Coutinho (Escritor e intelectual paraibano), depoimento durante homenagem a Simeão Leal no III Festival Nacional de Artes-Fenart, João Pessoa, 1997



Vim somente prestar minha homenagem a Simeão Leal. Conheci Simeão Leal em 1970, numa situação um tanto especial, na casa de José Américo de Almeida. Estávamos vivendo as premissas da experiência política da unidade do governo popular no Chile, de Salvador Allende, e ele me levou ao Chile para falar sobre esse evento, num seminário sobre a América Latina. Eu tinha muito interesse em conversar com Simeão, porque me disseram que ele era muito versátil em política internacional. Marchei para lá e minha mulher chegou meia hora depois e ficou estupefata com o que viu. Eu era novo, tinha pouco menos de 30 anos e o pessoal que estava ali representava uma idade média, de 85 anos pra lá. Lembrei de Seu Bastos, José Américo, e Simeão, de calção, short, tinha um aspecto simiesco. Todo peludo. Eram homens idosos, mas nunca vi tanta vida, tanta juventude, tanta pureza de espírito como ali. Simeão me deu uma explicação sobre os problemas do Chile, e me chamou atenção de que havia uma situação singular que no Chile, o partido socialista estava à esquerda do partido comunista. Mas a partir daí, passamos a outros assuntos e saí de lá quase às duas horas da tarde, não sentia fome, e foi uma conversa cosmopolita, universal. Se falou sobre tudo menos sobre fofoca, não se falou sobre a vida alheia, não se falou sobre a questão de emprego, fuxico, era uma conversa aberta, cultural, na mais legítima acepção da palavra, desde arte, política internacional, jornalismo, cultura, música... fez referência a Curt Lange e revelou o que vi agora porque estou fazendo uma pesquisa sobre a Paraíba, entre 1940 e 45, para chegar a redemocratização de 46.

Está na hora de rever mitos, algumas pessoas que vieram fazer conferências e que trouxeram o sinete da democracia. Não é nada disso. Simeão aparece nessa pesquisa, agora ele não foi Secretário como falou Chico Pereira, porque o Estado patrimonialista não comportava uma Secretaria para Simeão. Ele foi Diretor do Serviço Público, era uma função pública. E aconteceu uma coisa muito importante, que estou verificando agora. José Américo de Almeida só rompeu com Rui Carneiro, quando o Estado Novo estava desaparecendo. O pessoal de José Américo estava dentro do Estado Novo. Era Werniaud, era o Prefeito de Campina Grande, Chico Cícero, posso listar 10 ou 12. Simeão estava no DSP, tinha um cargo importante que equivalia a Secretário de Administração, movimentava com a máquina administrativa que tinha uma importância maior porque o número de repartições era muito menor. Tinha realmente uma importância grande e exercia certa função cultural que ele repartia com uma outra figura que a Paraíba precisa fazer justiça: Samuel Duarte, grande paraibano que fez um trabalho muito importante, extraordinário. O Governo de Rui Carneiro era medíocre, cheio de deuses de pés de barro, e tinha uma figura tão pequena, que nem lembro; sim, José Borja Peregrino. E o Governo de Rui Carneiro ganhou dimensão quando José Borja morreu e entrou Samuel Duarte e a coisa se reorienta. Ele tinha sido revolucionário, intelectual da melhor categoria, tinha sido Diretor de “A União”, tinha sido deputado federal e deu uma nova dimensão ao Governo, procurando colocar em alguns postos figuras de certo nível, e aproveitou Simeão Leal que ficou lá de 1942 a 1945 quando foi embora para o Rio de Janeiro, deu a mão a muita gente, inclusive a Cleanto Leite que veio se tornar um dos maiores paraibanos vivos. Mas nessa época ele estava aqui e foi Simeão que arranjou uma passagem para ele ir ao Rio de Janeiro fazer um concurso para o DASP e a partir daí fazer uma carreira que o levou às mais altas posições na economia, e até internacionalmente.

Depois dessa passagem em Tambaú, eu, com menos de 30 anos juntamente com um grupo que tinha uma média de 85 pra lá, eu era o mais velho deles. Seu Bastos era um homem de muita vitalidade, José Américo, nem se fala, e Simeão era um homem assim, que equilibrava muito os que ali se encontravam e se preocupou de fazer uma ponte entre mim e aquelas pessoas para não me criar problemas.

Houve o IV Centenário da Paraíba e eu coordenei a programação e procurei fazer um trabalho crítico, um trabalho sério. Não um trabalho-festa, mas um trabalho de avaliação crítica, de análise. Convoquei várias figuras da maior categoria, como Hélio Jaguaribe, em política, José Honório; em História, Aspásia Camargo, Edgar Caloni, e pessoas da área de arte, da música, do cinema, da pintura. Há certa altura já tínhamos feito alguns seminários em Pernambuco, na Fundação Joaquim Nabuco, aqui na Paraíba, na Bahia, na universidade, no interior, junto aos colégios, no Rio de Janeiro com Osvaldo Trigueiro e outros, e então Simeão Leal fez uma exposição muito boa que foi publicada, por inspiração de Chico Pereira, no último número da revista paraibana de cultura. E Chico Pereira surgiu com a ideia de realizarmos um seminário em Brasília, articulado por Marcondes Gadelha que, nessa época era do MDB. A gente estava lá na época do julgamento do Padre Vito Miracapillo, a que a gente compareceu, eu, Barbosa Lima Sobrinho, José Honório e outros. E me chamou a atenção uma figura que é uma espécie de gestor do sistema planetário, pela importância de que se reveste, pela imponência, mais imponente do que Mário Moacir Porto, que é Celso Furtado que estava lá e se curvou perante Simeão Leal. Lembro de uma reunião aqui de Celso Furtado com intelectuais do PMDB, todos perderam a fala, com exceção de mim e Chasim. Eu porque tinha certa prática em questão de rádio e Chasim porque ficava enrolando o cigarro e conversando. Celso Furtado é imperial, mas ele se curvou perante Simeão Leal. Era o terceiro dia, o encerramento deveria ser feito por Celso Furtado, que tinha vindo da Bélgica, mas ele cedeu a Simeão Leal. E foi cortejar Simeão. Eu vi então que Simeão era impressionante. Aliás já tinha visto isso, antes, no próprio evento do IV Centenário, no Rio, um historiador que, nem pelo fato de ser o meu mestre, não posso negar, era um poço de vaidade, José Honório Rodrigues, era muito vaidoso, brigão, mas eu gostava dele e estava sempre ao seu lado, e vi José Honório se curvar perante Ademar Vidal, que é outro paraibano, porque a Paraíba deu essas figuras que fizeram um trabalho extraordinário, silencioso, um trabalho, digamos assim, pedestre, sem querer conquistar cargos. Ademar Vidal fez um trabalho extraordinário. Nesse período, de 1940 a 44, ele foi nomeado procurador do Tribunal de Segurança Nacional. E toda semana a União publicava um ou dois artigos, quase um ensaio, uma página inteira, de Ademar Vidal. Nesta ocasião tinha muita gente importante, Barbosa Lima Sobrinho, e lá vem Ademar, com uma bengala, e José Honório. Dr. Ademar. E fiquei feliz porque vi o quanto ele era importante.

Pois é, havia uma consciência estabelecida de que o Brasil não era correto em suas memórias, as coisas se perdiam, desapareciam, apesar de ter um organismo como a Funarte. Mas isso mudou muito a partir do advento da Fundação Getúlio Vargas, onde tinha pessoas como Aspásia, Celina, Rosa Maria, todas estiveram aqui, a nosso convite, e elas modificaram essa política, dos anos 1960/70 para cá. Celina era uma figura chave, tinha muito prestígio, casada com Moreira Franco, neta de Getúlio, filha de Elvira, essas moças fizeram um trabalho muito bom, de muito peso, de salvar o que era fundamental, essas grandes figuras em sua totalidade, políticos, artistas, músicos etc. Salvaram os arquivos de Osvaldo Aranha, de Getúlio, de Luzar, grande número de estudos, de 20, 30 anos para cá, da época da Revolução de 30, incluindo a Paraíba, onde nosso grupo assumia a liderança, coisa que se deve a esse trabalho de organização, levantamento de arquivos, mas tudo era novo, isolado.

Temos, por exemplo, o arquivo de Alberto Torres, a mais poderosa consciência nacionalista do Brasil, nos anos 10, 20, 30. Ele morreu e criou-se a Sociedade dos Amigos de Alberto Torres que fermenta, inclusive na Revolução de 30, uma sociedade com uma visão muito larga da problemática brasileira, e naquele momento dominava a interpretação da realidade brasileira, e o arquivo sumiu. Quando Barbosa Lima frequentava a casa de Alberto Torres, em Botafogo, procurou o arquivo e não encontrou, e pôs a culpa nos integralistas. Houve uma briga, disseram que foram os integralistas, isso por volta de 38, 39 e deram fim ao acervo de Alberto Torres. E então ele se valeu da memória de um camarada que tinha pertencido à Sociedade dos Amigos de Alberto Torres que era José Gabriel da Costa Pinto, do Arquivo Nacional, e ele agradece. Esse foi um caso. Tem um caso mais grave depois, de Capistrano de Abreu, porque a Sociedade de Alberto Torres foi muito rápida, na época da guerra já não existia; mas a Sociedade dos Amigos de Capistrano de Abreu veio muito depois, chegou até 65, 66 e eu me empenhei para conhecer o arquivo, fazer um trabalho novo sobre Capistrano de Abreu e procurei, no entanto não encontrei mais nada, o material jogado numa espécie de sala velha, carcomida, em Fortaleza, encontrei alguns livros velhos, trouxe e minha mulher perguntou: para que você quer isso? Temos essa deficiência, não atentamos para a importância dessa documentação.

Depois veio uma iniciativa mais frutífera que nos deixa alguma esperança. Agora na minha passagem pelo Chile, fui a Salvatori e perguntei a Plínio Dolly sobre o arquivo de Santiago Dantas, que acho uma das figuras luminares do século. Escrevi um artigo sobre dois brasileiros importantes: Ulisses Guimarães e Hélio Jaguaribe, que deram continuidade à tradição de Santiago Dantas. Plínio Dolly me disse: o arquivo de Santiago Dantas eu doei ao Arquivo Nacional. Me deu até um cartão para procurar determinada pessoa quando eu fosse ao Rio de Janeiro, e eu vou dá uma olhada nisso. Alguns arquivos ainda estão bem tratados, mas outros estão desaparecendo completamente. Agora pergunto: o que vai ser feito do acervo de Simeão Leal? Falei com Chico Pereira sobre isso, porque Simeão Leal cedeu quadros, originais, livros, e a nós vamos fazer o que com isso? Inclusive, teremos condições de preservar, de instrumentalizar? Ora, porque preservar um arquivo não é guardar livros nas prateleiras, documentação, quadros nas paredes etc. É articular, catalogar, divulgar, fomentar a presença de pesquisadores para a realidade do trabalho.

Fico muito preocupado, porque o último caso calamitoso foi com a biblioteca de José Honório Rodrigues, 30 mil volumes e a viúva, felizmente, só vendeu a metade. Carlos Miranda conseguiu numa transação muito rápida alguma coisa, mas está inteiramente jogado às traças, tudo danificado, mas quando eu for ao Rio de Janeiro, vou procurar isso, e não se fez nenhum trabalho de preservação. O trabalho de José Honório está sendo feito aqui, por iniciativa do nosso grupo. Então vou aqui revelar, modestamente, essa minha dúvida, levantar esta minha perplexidade com o que a gente vai fazer com o acervo de Simeão Leal. Já fizemos uma coisa extraordinária, e quero me congratular com Chico Pereira, que saindo de suas comodidades, gratuitamente, sem cargo, sem poder, sem bajulação, como um verdadeiro soldado da cultura, trabalhando permanentemente, anonimamente nisso, conseguiu uma coisa extraordinária: trouxe todo o acervo de Simeão Leal para cá. Agora aí vem a pergunta: o que a gente vai fazer com esse acervo? Será que vai ter o mesmo destino do acervo de Alberto Torres, ou da documentação de Capistrano de Abreu, ou mais recentemente, da biblioteca de Honório Rodrigues? Então eram essas as colocações que queria fazer em homenagem a Simeão Leal que nós, de certa forma, reverenciamos e em homenagem, também, ao seu expositor, Muniz Sodré.

José Otávio de Arruda Mello (Historiador paraibano), depoimento durante homenagem a Simeão Leal no III Festival Nacional de Artes-Fenart, João Pessoa, 1997



Vou fazer um depoimento muito breve que quero apenas considerar como um caso dentro dessa história de Simeão Leal, um homem de elite. Alguns intelectuais ouviram falar de Simeão Leal, mas a Paraíba não sabia, como não sabe quem é.

Simeão Leal, a que a Paraíba se refere é o monsenhor do Governo da Paraíba na velha República. Depois o Chefe de Polícia trancou o jornal de Arthur Aquiles que era parente de Simeão Leal, mesmo assim os paraibanos não sabiam e nem sabem quem é Simeão Leal.

Trabalhando eu no jornal, nos anos de 1950, com um grande mestre que era Juarez Batista, estava montando um livrinho, trabalhando tipograficamente, levantando chapa, como a gente chamava, chega aquela figura dominadora e pergunta: o que é isso aí? Quem ensinou isso? Nós trabalhávamos pelas mãos de tipógrafos, não havia programação visual, não havia chefe de editora, havia uma tipografia dos anos 50, com noção de domínio técnico da arte tipográfica, e eu, era uma espécie de repórter e revisor tipográfico, trabalhava no livro de Juarez Batista, quando chega Simeão Leal, dá um bocado de espôrro, esculhamba tudo, diz que está tudo errado, pergunta o que era “fonte wolt” e eu fiquei, realmente enraivecido, encabulado, e foi o primeiro contato que tive com esse cidadão.

Depois, e quero colocar isso como um caso. Vou à Universidade Federal da Paraíba sondar e fiz ver ao Reitor que, com a experiência que eu tinha na Paraíba, precisava de um estágio, de uma experiência diferente fora daqui. Então me lembrei de Simeão Leal. Me mandaram para o Rio de Janeiro e comecei a ter uma espécie de alumbramento pela figura de Simeão Leal que, além de ser uma figura gozada, espirituosa, irreverente, tirava certas brincadeiras com as coisas que eu gostava e reunia aquilo tudo que nós na província, nas cidades distantes, temos vontade de ver. Essa imagem mítica, de escritor, de Drummond de Andrade, Afrânio Coutinho, que vemos como figuras de outros mundos.

De repente caio na Divisão de Documentação do Ministério da Educação e Saúde, então lá tive as pessoas polarizadas por um cidadão chamado Simeão Leal que não falava nada com elas sobre livros; eram somente anedotas, conversas “fiadas”, mulher que passava etc. Essa figura se fez amigo meu, me mandou ao encontro de uma das figuras mais impressionantes de toda a minha vida, que foi Aluísio Magalhães, e foi no estúdio dele que obtive as noções para toda a minha vida, alguns princípios, alguns conceitos.

Naquela época tínhamos uma representação política importante, como o Ministro da Justiça, Abelardo Jurema, tínhamos ministros, deputados, uma grande representação. Mas essas figuras que tinham nome, que toda a Paraíba conhecia, não pegavam uma letra do poder, da polarização dessa figura que era Simeão Leal, uma figura que tinha a seus pés todo o mundo na área de cultura, editava os Cadernos de Cultura, não de brasileiros, mas de artistas, escritores, de todas essas figuras. Pela primeira vez na vida lamentei a Paraíba não saber quem era Simeão Leal, não conhecer Simeão Leal e embora ele não esteja vivo, esse trabalho ele merece. Outra figura que a Paraíba conhece e que se deve pronunciar o nome dele é Órris Soares que teve um grande papel aqui na Paraíba, mas Simeão Leal não teve esse nome na Paraíba. Que se faça justiça agora.

Gonzaga Rodrigues (Jornalista e escritor paraibano), depoimento durante homenagem a Simeão Leal no III Festival Nacional de Artes-Fenart, João Pessoa, 1997